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18/12/2009 Pavan: “Vou assumir o governo”
Adriana Baldissarelli/CNR/ADI-SC | Florianópolis
Nove quilos mais magro, ainda "muito revoltado" e sem ter conseguido
chorar, como avisa, o vice-governador Leonel Pavan (PSDB) concedeu
ontem uma entrevista exclusiva aos jornais da Rede ADI-SC sobre a
denúncia de corrupção entregue esta semana pelo procurador-geral de
Justiça, Gercino Gomes Neto, ao Tribunal de Justiça. O
vice-governador nega que tenha recebido vantagem indevida de
empresários do ramo de combustíveis, confia que vai assumir
interinamente o governo dia 5 de janeiro, a partir do que pretende
manter inalterada sua agenda administrativa, mas admite que a condição
política de sua pré-candidatura em 2010 será reavaliada com seu
partido. "Desculpe o discurso, é minha emoção, sou
gringo assim mesmo, estou muito revoltado e é a primeira vez que estou
falando, aliás, ainda não consegui nem chorar", justificou, sobre o tom
de voz que se acentuava em alguns momentos, quase sempre quando gotas
de suor escorriam pelo rosto e cabelo recém saídos de um banho. Ao
final da gravação, reclamou de "fofocas absurdas" que teriam sido
divulgadas desde que começou o episódio. Refutou as informações de que
fosse "amigo íntimo" dos empresários Marcos Pegoraro e Eugênio Rosa e
acrescentou que só soube que ambos não representam a Arrows Petróleo do
Brasil agora, lendo o processo.
ADI - Com que sentimento o sr. recebeu o indiciamento pela Polícia Federal e a denúncia pelo Ministério Público? Leonel Pavan -
Bom, teve duas etapas. Uma quando fui convidado para depor, fui de
livre e espontânea vontade, com o desejo de colaborar com qualquer tipo
de investigação que pudesse ocorrer. A segunda é a execração do
indiciamento de algo que realmente não cometemos.
ADI - No momento em que prestou depoimento o sr. não sabia que poderia ser indiciado? Pavan -
Primeiro, se eu tivesse, como estão dizendo que me avisaram de que eu
estava indiciado, nem deveriam me convidar para depor. Se já estava
indiciado... Como me indiciar para depois me ouvir? O indiciamento
oficial eu fiquei sabendo pela imprensa.
ADI – Essa decisão do TJ de não aceitar o pedido de nulidade da denúncia nem do inquérito, o sr. recebeu com muita preocupação? Pavan –
Isso são estratégias de advogados. Eu não sou advogado e muito menos
criminalista, eu sei advogar para o povo, dentro do governo, dentro do
meu trabalho. Eu sei o que é atender as pessoas. São estratégias de
advogados. Eu ouvi do meu advogado e de amigos que houve alguma
precipitação de ambos os lados.
ADI - Na denúncia, és o único no Artigo 327, que trata de promessa ou vantagem indevida. Recebeu os R$ 100 mil? Pavan – A
minha indignação é esta, não é aquela de dizer que eu atendo as
pessoas. Eu atendi e vou continuar atendendo, senão vou ter de fechar
meu gabinete. A minha indignação é esta: por ilações, por acharem,
porque alguém falou, porque entre eles (os empresários envolvidos)
falaram; estão prejulgando a minha honra , prejulgando todo um
trabalho. Esta é minha decepção quanto a todos estes atos. Jamais
ocorreu isto com essas pessoas. Muito menos as chamadas fotos e vídeos
que falaram que tinham.
ADI - Não existem? Pavan - Não
existem. Primeiro, porque não existiu nenhum ato, nem por parte deles
de oferecimento a minha pessoa. Então, não existiu. Seria fato inédito
na República Brasileira alguém pagar para depois ser beneficiado. Só
nisto dá para imaginar. Como pode? Se os documentos não foram
liberados, se até hoje eles continuam em débito, se até hoje continuam
devendo. Na certidão do governo estão em débito. Nunca o governo
retirou um ‘ai na sua posição de seriedade. As reivindicações, que eles
fizeram, ocorrem todos os dias. E muitas reivindicações. E o que faz
uma pessoa que tem a autoridade que eu tenho, ou governador, ou
vice-governador, ou deputado, ou prefeito? Encaminha para os setores
competentes. Este é um fato normal para quem comanda, quem detém um
mandato. Como eu não sou juiz, eu não vou dizer se eles têm ou não têm
razão. Então, eu mandava para a Secretaria da Fazenda, para o
secretário da Fazenda, também encaminhei para o secretário da Fazenda,
para os diretores da Fazenda. E todas as vezes que eu encaminhava, eles
estariam verificando se haveria a possibilidade. Como nunca houve
possibilidade, não foi resolvido. Onde está o fato concreto, se o
governo não atendeu? E olha que eu, como vice-governador, poderia usar
da minha autoridade para agilizar, para atender. Não, nós sempre
encaminhamos, dizendo verifique como está o processo, como está
andando, se eles têm razão, se apresentaram pleitos. Esta é uma forma
de atender. Eu lamento muito que pegaram essas interpretações,
conversas de terceiros, deles, sei lá por quais motivos, pegaram para
usar isso como crime. Se não atendemos, se o governador Pavan, quando
no mandato, o Pavan como vice-governador, com toda a autoridade que
tem, não fez, onde está o crime?
ADI
- Se o governo afastar esses servidores da Fazenda (ontem Pedro Mendes
e Anastácio Martins pediram exoneração)... o que o sr. acha dessa
situação? Pavan -
Eu quero aqui fazer uma defesa desses servidores da Fazenda. Todas as
vezes que eu os procurei, foram muito transparentes, diziam que estavam
verificando, vendo as garantias, se realmente era possível. Mas, todas
as vezes, nos comunicavam que estava difícil de ser resolvido enquanto
eles não pagassem os seus débitos. Só pode liberar a inscrição se a
pessoa acertar os seus débitos ou se der alguma coisa em garantia e
passar a pagar. Como não fizeram, não foi liberado.
ADI - A que o sr. atribui esse episódio à véspera de assumir o governo? Pavan - Cada
vez que chega próximo de uma eleição, acontece isso. Pode olhar o
histórico político. Sempre surgiram acusações duríssimas contra a minha
pessoa e contra a minha família. E muitas daquelas que foram feitas
publicamente e divulgadas na imprensa, sequer, depois, deram
encaminhamento na Justiça. Sequer denunciaram à Justiça que seria o
comum. E, em todas aquelas que foram denunciadas, provamos a nossa
inocência. E nunca fomos punidos. Talvez isso também tenha motivação
política. Basta ver alguns blogs que já estão ocorrendo. Mas não quero
envolver aqui nem a Polícia Federal, nem o Ministério Público. Não,
porque eles estão no papel deles, papel de Justiça, eles têm que
investigar, se surgiram fatos a Polícia Federal e o Ministério Público
têm que investigar e fazer o papel. Esse é o Direito, é assim que
respeitamos o processo democrático. E nós respeitamos. O que eu coloco
em dúvida, da mesma forma que fizeram ilações no processo, de que eu
poderia ter pego (dinheiro), eu também quero fazer a ilação de que pode
haver, no início de tudo isso, um jogo político.
ADI - O sr. assume o governo no dia 5? Pavan - O
governador tem mantido a sua agenda e, insistentemente, tem falado para
eu assumir. Porque o Luiz Henrique conhece a minha idoneidade, a minha
inocência. O Luiz conhece meu trabalho, sabe da minha transparência.
Nunca passei o pé do risco, porque eu sei me colocar na posição de
vice-governador. As declarações dele me confortam, mas apenas porque
ele sabe da minha idoneidade. A agenda será mantida. Porém eu,
particularmente, vou conversar com o meu partido sobre a posição que
devo assumir daqui pra frente.
ADI - O sr. pode revisar sua pré-candidatura ao governo? Pavan -
O que estou recebendo de apoio, você não imagina, solidariedade de
pessoas que eu jamais imaginava. De pessoas que estavam em dúvida em
quem votar, hoje sentindo esta injustiça, sentindo esta mesma dor que
estou sentindo, dizem: Pavan, eu agora, estou contigo, porque não se
faz isso com uma pessoa que está trabalhando pelo Estado. Eu estou
sentindo muita solidariedade, não param os telefones, dos meus
secretários, da minha família, no meu site, eu não paro.
ADI - O MP disse que vai estudar a questão da improbidade administrativa que, aí sim, poderia afetar seus direitos políticos. Pavan - Veja
só: eu disse há pouco que a Justiça tem que fazer justiça, tem que
procurar por todos os meios. Ainda não acharam argumento para isso. Se
eles entenderem... Infelizmente, hoje tu tens que provar que é honesto,
tem que se debater 24 horas para dizer que é honesto. Interessante.
ADI - O fato de ter o recesso agora e ficar até fevereiro e aí ter de cuidar sua defesa atrapalha muito? Pavan -
Isso atrapalhou bastante porque estávamos fazendo um planejamento com a
ENA (Escola Nacional de Administração), com o Vinícius Lummertz, com o
Dalírio Beber, com o meu partido, e tantas e tantos outros
colaboradores que estavam criando projetos fortíssimos para iniciarmos
já no dia 5, sobre segurança, sobre saúde. Eu, depois que fiz o meu
depoimento, subi e fui falar com o doutor Gercino para planejarmos um
trabalho para acabar com as filas nos hospitais. No mesmo dia, e ele me
recebeu bem, com mais promotores, falamos em projetos, em segurança,
fui fazer pedido ao MP que é um setor fiscalizatório forte para
verificar a possibilidade de acabarmos com filas para cirurgias, com
falta de anestesistas, temos hospitais, mas falta mão de obra. Estou
com projeto fortíssimo dando continuidade àquilo fui fazer no exterior,
trazendo aqui Rudolph Giuliani, para tentarmos fazer com que as
polícias se entendam mais, com que a sociedade seja mais segura,
tentarmos criar equipamentos de última tecnologia para atender às
pessoas e principalmente na questão da saúde. Eles se prontificaram, no
ato, disseram: vamos sentar ano que vem e vamos achar um caminho. Isso
que eu estava projetando, porém, tudo isso esvaziou, nesses dias nem
sabia se falava com meu advogado, se falava com o meu partido, se
atendia os telefonemas do Brasil inteiro ou se recebia os amigos na
minha casa, tamanha era a movimentação. E eu quero agradecer a
solidariedade, o carinho e o apoio, mas além disso, a confiança que não
vai me faltar.
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